O preço do trabalho
Vale ficar mais tempo no escritório só para ter um carro novo? O filósofo Renato Janine Ribeiro sugere que você pense nisso.
Renato em seu escritório na diretoria da Capes, em Brasília: carga horária excessiva só se justifica em cargos de chefia. "Sou um exemplo disso"
O filósofo Renato Janine Ribeiro, de 56 anos, defende que, se as pessoas trabalhassem menos e aproveitassem melhor seu tempo ocioso, as empresas só teriam a ganhar em criatividade e produção. A idéia principal se parece, sim, com a de seu colega de profissão, o italiano Domenico de Masi, um estudioso das relações de trabalho. Mas o campo de estudos de Renato se espalha por outras áreas. Professor de ética e filosofia na Universidade de São Paulo (USP), com mestrado pela francesa Sorbonne, ele se dedicou à análise da democracia, da política, da sociedade brasileira (um de seus livros, A Sociedade Contra o Social
O Alto Custo da Vida Pública no Brasil, ganhou do Prêmio Jabuti em 2001) e até do efeito da televisão na sociedade. Atualmente dirige a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Este currículo lhe permite uma visão abrangente dos motivos do excesso de trabalho, da busca por status e das conseqüências nocivas da falta de lazer, como você vê na entrevista a seguir.
O trabalho está tomando um espaço enorme na vida das pessoas em detrimento da família, dos relacionamentos e de outras atividades. Por quê?
Eu vou tentar explicar isso olhando para a sofreguidão com que os meus alunos da graduação querem rapidamente definir sua vida profissional, mesmo sendo alunos de filosofia. Querem conseguir uma bolsa urgentemente durante a graduação, quando sabemos hoje que irão viver 80 ou até 100 anos. Acho que as pessoas se adaptaram a um clima terrível de competição e de insegurança e que estão partindo da ilusão de que têm uma única oportunidade de fazer carreira. Hoje, a relação com a idade está diferente porque a expectativa de vida aumentou. Sua vida não pára se você tiver um filho aos 18. Você pode tê-lo, se dedicar intensamente a essa criança por cinco ou dez anos e depois retomar sua carreira. Você vai começar um pouco mais tarde, mas e daí? Se não for para ser jogador de futebol, modelo e mais duas ou três profissões, não vejo tanta diferença.
E por que, na sua opinião, mães executivas voltam ao trabalho um mês depois de ter dado à luz?
As pessoas se tornaram descartáveis: é muito fácil encontrar alguém para nos substituir. A coisa fica muito estressante quando você está em um lugar em que pode ser facilmente substituído. E há ainda a questão da falta de paciência. Criar um filho exige muita paciência. Para quem pertence a uma classe média que não está acostumada a esperar na fila do banco nem ficar parada no trânsito, ter essa paciência é ainda mais difícil.
A reengenharia gerou esse medo de ser substituído?
Também. Uma das críticas à reengenharia foi a de ter quebrado o elo de confiança entre a empresa e os empregados. Antigamente existiam empresas em que se fazia carreira a vida toda. A Odebrecht, só para citar um exemplo, ainda é assim: faz questão de manter seus funcionários e promovê-los. Mas hoje se demite com muita facilidade. O problema é: quanto isso custa em termos de fidelidade? Se você é demitido por um motivo conjuntural, sua relação com a empresa fica muito tênue. Mas, para além da reengenharia, tivemos um ganho de produtividade gigantesco, sobretudo com a informatização, que não foi revertido em favor de tempo livre aos trabalhadores.
Qual o papel que o consumo intenso de nossos dias tem sobre a quantidade de horas que trabalhamos?
Até agora estamos falando das pessoas enquanto trabalham. E as pessoas trabalham para comprar coisas. Uma vez li que um grupo de médicos de uma cidade no interior de São Paulo alugava um jatinho e ia para o Rio de Janeiro passar o fim de semana. Calcule: o aluguel do jatinho significa quantas horas de trabalho? Será que vale a pena? Até que ponto esses bens servem a você? Essas pessoas, antes de mais nada, estão ostentando para a namorada ou para o grupo ao qual pertencem.
Mas o trabalho cria necessidades, não cria?
De certa forma, mas isso é questionável. Vou dar um exemplo de um grupo de jovens yuppies de Seattle, nos Estados Unidos, que trabalhava no mercado financeiro e começou a fazer cálculos detalhados de custo-benefício. Eles calcularam, por exemplo, quantas horas de trabalho eram necessárias para trocar de carro todo ano. Se fizermos um cálculo equivalente, para ter um carro novo a cada ano no Brasil, trabalha-se de dois a quatro meses. E os rapazes de Seattle começaram a questionar se essa troca valia a pena. Então, passaram a investir o dinheiro em aplicações financeiras e garantir uma renda módica para o resto da vida. Assim eles poderiam se mudar para o campo e viver fazendo o que bem quisessem. Eles se questionaram se valia a pena ganhar tanto e não ter tempo para gastar, e concluíram que não.
Trocar de carro todo ano não era uma forma de competir com os colegas?
Claro que sim. Este é um outro ponto: o uso do dinheiro como poder. Existe um patamar acima do qual o dinheiro que você ganha não faz a menor diferença para sua qualidade de vida. Existe um limite para a utilidade do dinheiro. E, no entanto, há gente que ganha 500 000 e quer ganhar 1 milhão. Pensam que, se ganharem mais, valerão mais ou poderão desfrutar mais. Enquanto, na verdade, o que acaba acontecendo é que desfrutam menos.
Você fala da importância do ócio, que é um lazer com papel importante, não apenas tempo livre. Como é esse ócio?
Ócio, em latim antigo, designa um lazer de qualidade. E há a palavra contrária, que é negócio, que significa não-ócio e, até o final da Idade Média, significava dedicação à vida pública. A grande discussão da Renascença era sobre qual o mais vantajoso: o ócio, que era o cultivo das musas e das artes, da cultura, ou o negócio e, portanto, o empenho em fazer política para o bem comum. Hoje, ócio é simplesmente o tempo em que você não está trabalhando, mas deveria ser o tempo em que a pessoa está fazendo o que quer. Para a maioria, porém, resume-se a ver tevê, beber e pouco mais do que isso. O domingão, aliás, é isso. Não é um tempo enriquecedor culturalmente ou fisicamente.
Será que esse ócio de má qualidade faz com que as pessoas queiram trabalhar mais?
Há uma articulação sistêmica: trabalhar muito está ligado a um ócio de má qualidade, mas uma coisa não é conseqüência da outra. Essa situação de ócio limitado não permite que as pessoas manifestem outras identidades que não apenas a de profissionais. Explicando: quando você está na linha de montagem, não tem tempo de questionar sua vida. Há algo no trabalho de hoje que é imbecilizante, pois não dá tempo para que as pessoas pensem. Por outro lado, as empresas requisitam profissionais muito criativos. Então espera-se que você tenha acesso ao lugar onde a criação está: às artes. A saída que algumas empresas estão encontrando é pagar aos executivos cursos de artes. É uma forma de fazê-los fugir do convencional e aumentar a produtividade. Mas não se faz isso em escala social. Poderíamos reduzir o número de horas de trabalho, por exemplo, para que as pessoas tenham tempo de fazer algo diferente.
Será que as pessoas querem essas horas a menos de trabalho por dia se hoje o trabalho está ligado à ambição, ao status social?
Há sim pessoas que não querem ficar em casa. Têm uma relação conjugal ruim e o trabalho as deixa livre disso. Sempre que falamos da ampliação do tempo de lazer, tocamos em uma espécie de medo da verdade. Passar mais tempo fora do trabalho implica se dedicar mais aos relacionamentos e nem todo mundo quer isso. Vejo esse medo como um dos impedimentos para aumentarmos nosso tempo ocioso. Temos todas as condições tecnológicas para reduzir a carga de trabalho e nos estressamos aumentando-a. Isso é compreensível em casos excepcionais, como os cargos de direção ou de profissionais altamente especializados, mas, de maneira geral, não haveria motivo para esse estresse se mais gente estivesse dividindo as tarefas.
Por que não se consegue colocar em prática o horário de trabalho flexível?
Pois é, me surpreende que as empresas dêem tanta importância ao Domenico de Masi [filósofo italiano que defende a necessidade de ócio criativo e a redução das horas de trabalho] e não levem em conta o que ele ensina. A área de recursos humanos tem boas propostas, mas tenho a impressão que não tem peso na empresa. No frigir dos ovos, os empresários têm uma visão conservadora. Ninguém precisa ser igual ao Ricardo Semler [presidente do grupo Semco, que instalou redes de descanso na empresa e eliminou o horário fixo], mas é possível ser bem mais flexível do que hoje.
Vale ficar mais tempo no escritório só para ter um carro novo? O filósofo Renato Janine Ribeiro sugere que você pense nisso.
Renato em seu escritório na diretoria da Capes, em Brasília: carga horária excessiva só se justifica em cargos de chefia. "Sou um exemplo disso"
O filósofo Renato Janine Ribeiro, de 56 anos, defende que, se as pessoas trabalhassem menos e aproveitassem melhor seu tempo ocioso, as empresas só teriam a ganhar em criatividade e produção. A idéia principal se parece, sim, com a de seu colega de profissão, o italiano Domenico de Masi, um estudioso das relações de trabalho. Mas o campo de estudos de Renato se espalha por outras áreas. Professor de ética e filosofia na Universidade de São Paulo (USP), com mestrado pela francesa Sorbonne, ele se dedicou à análise da democracia, da política, da sociedade brasileira (um de seus livros, A Sociedade Contra o Social
O Alto Custo da Vida Pública no Brasil, ganhou do Prêmio Jabuti em 2001) e até do efeito da televisão na sociedade. Atualmente dirige a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Este currículo lhe permite uma visão abrangente dos motivos do excesso de trabalho, da busca por status e das conseqüências nocivas da falta de lazer, como você vê na entrevista a seguir.
O trabalho está tomando um espaço enorme na vida das pessoas em detrimento da família, dos relacionamentos e de outras atividades. Por quê?
Eu vou tentar explicar isso olhando para a sofreguidão com que os meus alunos da graduação querem rapidamente definir sua vida profissional, mesmo sendo alunos de filosofia. Querem conseguir uma bolsa urgentemente durante a graduação, quando sabemos hoje que irão viver 80 ou até 100 anos. Acho que as pessoas se adaptaram a um clima terrível de competição e de insegurança e que estão partindo da ilusão de que têm uma única oportunidade de fazer carreira. Hoje, a relação com a idade está diferente porque a expectativa de vida aumentou. Sua vida não pára se você tiver um filho aos 18. Você pode tê-lo, se dedicar intensamente a essa criança por cinco ou dez anos e depois retomar sua carreira. Você vai começar um pouco mais tarde, mas e daí? Se não for para ser jogador de futebol, modelo e mais duas ou três profissões, não vejo tanta diferença.
E por que, na sua opinião, mães executivas voltam ao trabalho um mês depois de ter dado à luz?
As pessoas se tornaram descartáveis: é muito fácil encontrar alguém para nos substituir. A coisa fica muito estressante quando você está em um lugar em que pode ser facilmente substituído. E há ainda a questão da falta de paciência. Criar um filho exige muita paciência. Para quem pertence a uma classe média que não está acostumada a esperar na fila do banco nem ficar parada no trânsito, ter essa paciência é ainda mais difícil.
A reengenharia gerou esse medo de ser substituído?
Também. Uma das críticas à reengenharia foi a de ter quebrado o elo de confiança entre a empresa e os empregados. Antigamente existiam empresas em que se fazia carreira a vida toda. A Odebrecht, só para citar um exemplo, ainda é assim: faz questão de manter seus funcionários e promovê-los. Mas hoje se demite com muita facilidade. O problema é: quanto isso custa em termos de fidelidade? Se você é demitido por um motivo conjuntural, sua relação com a empresa fica muito tênue. Mas, para além da reengenharia, tivemos um ganho de produtividade gigantesco, sobretudo com a informatização, que não foi revertido em favor de tempo livre aos trabalhadores.
Qual o papel que o consumo intenso de nossos dias tem sobre a quantidade de horas que trabalhamos?
Até agora estamos falando das pessoas enquanto trabalham. E as pessoas trabalham para comprar coisas. Uma vez li que um grupo de médicos de uma cidade no interior de São Paulo alugava um jatinho e ia para o Rio de Janeiro passar o fim de semana. Calcule: o aluguel do jatinho significa quantas horas de trabalho? Será que vale a pena? Até que ponto esses bens servem a você? Essas pessoas, antes de mais nada, estão ostentando para a namorada ou para o grupo ao qual pertencem.
Mas o trabalho cria necessidades, não cria?
De certa forma, mas isso é questionável. Vou dar um exemplo de um grupo de jovens yuppies de Seattle, nos Estados Unidos, que trabalhava no mercado financeiro e começou a fazer cálculos detalhados de custo-benefício. Eles calcularam, por exemplo, quantas horas de trabalho eram necessárias para trocar de carro todo ano. Se fizermos um cálculo equivalente, para ter um carro novo a cada ano no Brasil, trabalha-se de dois a quatro meses. E os rapazes de Seattle começaram a questionar se essa troca valia a pena. Então, passaram a investir o dinheiro em aplicações financeiras e garantir uma renda módica para o resto da vida. Assim eles poderiam se mudar para o campo e viver fazendo o que bem quisessem. Eles se questionaram se valia a pena ganhar tanto e não ter tempo para gastar, e concluíram que não.
Trocar de carro todo ano não era uma forma de competir com os colegas?
Claro que sim. Este é um outro ponto: o uso do dinheiro como poder. Existe um patamar acima do qual o dinheiro que você ganha não faz a menor diferença para sua qualidade de vida. Existe um limite para a utilidade do dinheiro. E, no entanto, há gente que ganha 500 000 e quer ganhar 1 milhão. Pensam que, se ganharem mais, valerão mais ou poderão desfrutar mais. Enquanto, na verdade, o que acaba acontecendo é que desfrutam menos.
Você fala da importância do ócio, que é um lazer com papel importante, não apenas tempo livre. Como é esse ócio?
Ócio, em latim antigo, designa um lazer de qualidade. E há a palavra contrária, que é negócio, que significa não-ócio e, até o final da Idade Média, significava dedicação à vida pública. A grande discussão da Renascença era sobre qual o mais vantajoso: o ócio, que era o cultivo das musas e das artes, da cultura, ou o negócio e, portanto, o empenho em fazer política para o bem comum. Hoje, ócio é simplesmente o tempo em que você não está trabalhando, mas deveria ser o tempo em que a pessoa está fazendo o que quer. Para a maioria, porém, resume-se a ver tevê, beber e pouco mais do que isso. O domingão, aliás, é isso. Não é um tempo enriquecedor culturalmente ou fisicamente.
Será que esse ócio de má qualidade faz com que as pessoas queiram trabalhar mais?
Há uma articulação sistêmica: trabalhar muito está ligado a um ócio de má qualidade, mas uma coisa não é conseqüência da outra. Essa situação de ócio limitado não permite que as pessoas manifestem outras identidades que não apenas a de profissionais. Explicando: quando você está na linha de montagem, não tem tempo de questionar sua vida. Há algo no trabalho de hoje que é imbecilizante, pois não dá tempo para que as pessoas pensem. Por outro lado, as empresas requisitam profissionais muito criativos. Então espera-se que você tenha acesso ao lugar onde a criação está: às artes. A saída que algumas empresas estão encontrando é pagar aos executivos cursos de artes. É uma forma de fazê-los fugir do convencional e aumentar a produtividade. Mas não se faz isso em escala social. Poderíamos reduzir o número de horas de trabalho, por exemplo, para que as pessoas tenham tempo de fazer algo diferente.
Será que as pessoas querem essas horas a menos de trabalho por dia se hoje o trabalho está ligado à ambição, ao status social?
Há sim pessoas que não querem ficar em casa. Têm uma relação conjugal ruim e o trabalho as deixa livre disso. Sempre que falamos da ampliação do tempo de lazer, tocamos em uma espécie de medo da verdade. Passar mais tempo fora do trabalho implica se dedicar mais aos relacionamentos e nem todo mundo quer isso. Vejo esse medo como um dos impedimentos para aumentarmos nosso tempo ocioso. Temos todas as condições tecnológicas para reduzir a carga de trabalho e nos estressamos aumentando-a. Isso é compreensível em casos excepcionais, como os cargos de direção ou de profissionais altamente especializados, mas, de maneira geral, não haveria motivo para esse estresse se mais gente estivesse dividindo as tarefas.
Por que não se consegue colocar em prática o horário de trabalho flexível?
Pois é, me surpreende que as empresas dêem tanta importância ao Domenico de Masi [filósofo italiano que defende a necessidade de ócio criativo e a redução das horas de trabalho] e não levem em conta o que ele ensina. A área de recursos humanos tem boas propostas, mas tenho a impressão que não tem peso na empresa. No frigir dos ovos, os empresários têm uma visão conservadora. Ninguém precisa ser igual ao Ricardo Semler [presidente do grupo Semco, que instalou redes de descanso na empresa e eliminou o horário fixo], mas é possível ser bem mais flexível do que hoje.
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